Setembro de 2013

A fatalidade em falar

A palavra falada é irreversível, tal é a sua fatalidade. (BARTHES, p.93).

A palavra falada é irreversível, tal é a sua fatalidade. (BARTHES, p.93).

Acho esse trecho perfeito para abrir este espaço. É exatamente sobre isso que quero escrever aqui. Essas palavras faladas que guiam, constroem e possibilitam relações entre pessoas próximas, desconhecidas, úteis umas para as outras... Milhares de palavras faladas ao longo de um dia (20 mil?), de um ano, uma vida e a proximidade que elas guardam da fatalidade.

Barthes continua dizendo que nada do que é dito, falado, pode ser retomado, a não ser que se acrescente algo ao que foi dito. Toda vez que você se vê num mal entendido e diz, por exemplo, ‘não foi isso que eu quis dizer’, foi isso que você disse e aí já está dito, é como se uma janela de sentido se abrisse para aquele que ouviu e esse sentido não pudesse jamais ser apagado. E o que se acrescenta? Há toda uma dimensão por trás das palavras que tem muito mais a ver com o que significa dizê-las do que com o significado que elas guardam. Mede o peso de ‘eu retiro o que disse.’

Pode mesmo ser fatal, tanto fatal enquanto um infortúnio, um azar, quanto fatal de fadado, predestinado, da sorte. E é aí que as trocas diárias, seja comprando um jornal na banca ou numa jura de amor, viram essas contingências enormes, com possibilidades das mais previsíveis às mais remotas.

É como se diz por aí, é arriscado viver, você pode sair e ser atropelado ou dizer alguma coisa. Mas a gente sai por aí com a falsa sensação de controle do que é dito. É só essa falsa sensação que faz você acreditar que pode prever as consequências do que diz que vai fazer você falar de novo, caso contrário, você não se atreveria.