Junho de 2013

Do começo

Não é fácil começar a escrever na internet. Não se sabe quem vai ler ou se alguém vai ler, é como escrever sem público e com todo o público do mundo. Difícil.

O site vai tratar da minha paixão, a linguística, mas não é por ela que resolvi começar. Tenho encontrado tantas dificuldades pra fazer linguística nos dias de hoje que talvez por isso tenha escolhido essas dificuldades como o tema do meu primeiro post.

Em primeiro lugar, quando você diz que é pesquisador ninguém sabe de fato o que você faz, mas há duas tendências fortes, ou você é do censo e coleta dados de pesquisas quantitativas para as urnas, para o Fantástico etc. Ou então você é pesquisador-cientista, que se aproxima um pouco da sua realidade, mas também não é o que você faz. Porque a imagem do pesquisador-cientista guardada pelo senso comum não é aquele que pesquisa as relações entre as pessoas em sociedade, mas aquele que pesquisa em laboratório com ratos e substâncias químicas.

Algumas universidades até tem, mas o linguista não precisa de um laboratório para fazer ciência. O laboratório do linguista, principlamente, o linguista que é analista da conversa, é a rua, a sua família, as conversas que ouve da mesa ao lado no bar, ou as suas próprias. E por que ninguém sabe disso?

Outra frustração são todas as barreiras que a gente encontra pela frente quando opta por essa profissão 'desconhecida'. O governo Dilma tem investido muito em ciência, ampliando o número de bolsas de estudos, criando convênios com universidades estrangeiras... ok, mas e por que, mesmo com todas essas iniciativas é tudo tão, mas tão, burocrático?

Eu estou tentando uma bolsa sanduíche pra ir para a Austrália. Se eu conseguir vou trabalhar diretamente com professores que inspiram e dão corpo à minha tese, é como jogar bola com o Neymar, sei lá, mas como é difícil conseguir uma bolsa dessas. E não é uma questão de mérito intelectual só. Eu sou a favor desse mérito, mas vai muito além disso. É preciso uma carta do professor de fora, uma carta do orientador, mais uma carta de sei lá mais quem, uma declaração do departamento, e um milhão de outros termos e procedimentos. Não é possível que todo o investimento que se mostra aí na mídia tenha a intenção verdadeira de promover esses intercâmbios todos, acho que são poucos os pesquisadores que vão até o fim, que conseguem passar essa barreira burocrática sem maiores traumas...

E outra, como é que você acessa um periódico? Paga 40 euros pra ler um texto? Recebendo uma bolsa suada de R$2000,00? Se nem mesmo a biblioteca da sua universidade tem acesso a esses periódicos...

Essas são algumas poucas questões enfrentadas pelo linguista aqui no Brasil. É preciso muita paixão mesmo.

É isso.